domingo, 18 de novembro de 2012

Nietzsche a tragédia graga


Nietzsche a tragédia graga

A arte grega, e principalmente a tragédia grega, susteve a destruição do mito; foi necessário destruí-las para, livre do solo pátrio, poder viver desenfreadamente na selvageria do pensamento, da moral e da ação.Ainda agora tenta proporcionar-se aquele impulso metafísico uma forma de transfiguração, conquanto que enfraquecida, no socratismo da ciência que impele à vida; mas, nas esferas inferiores, este impulso não levou senão a uma procura febril, que se perdeu, pouco a pouco, num pandemônio de mitos e superstições colhidas em toda parte, entre os quais se situava, intranqüilo, o heleno, até que conseguiu,como Gréculo, pôr uma máscara de alegria grega e leviandade grega a esta febre, ou entorpecer-setotalmente com qualquer superstição oriental.  Aproximámo-nos deste estado, desde o renascimento da antiguidade alexandrino-romana do século XV,depois de um entreato difícil de descrever, de forma assombrosa. Nas alturas a mesma imensa vontade desaber, a mesma alegria insaciável de achar, a mesmo enorme secularização, a seu lado um vagueio sem pátria, um ávido acercar-se a mesas estranhas, um leviano endeusar da atualidade ou um alienar entorpecido. Tudo
 sub specie saeculi
do “tempo atual”; sintomas que nos fazem crer em igual falta no coração da cultura, em destruição do mito. Não parece ser possível transplantar, com sucesso contínuo, omito estranho, sem ferir incuravelmente a árvore com esta transplantação, que é alguma vez, quiçá, bastante forte e sã para expulsar aquele elemento estranho em luta terrível mas que, geralmente, definha e perece ou se consome em viço doentio. Confiamos tanto no núcleo puro e vigoroso do ser alemão, que dele ousamos esperar a expulsão daqueles elementos estranhos, implantados pela violência, e cremos existir a possibilidade do espírito alemão voltar às suas próprias fontes. Há, talvez, quem julgue dever começar aquele espírito com a expulsão do românico; para o que poderia reconhecer uma preparação e um alento externo na coragem vitoriosa e glória sangrenta da última guerra, mas deve buscar a necessidade interna na anulação, de sempre ser digno dos excelsos precursores deste trajeto, de Lutero assim como de nossos grandes artistas e poetas. Mas que nunca acredite em poder sustentar embates semelhantes sem seus penates, sem sua pátria mítica, sem um “revolver” de todas as cousas alemãs! Equando o alemão procurar encontrar um guia que com ele retorne à pátria há muito perdida, e cujoscaminhos e pontes, nem mais conhece — então ele deve atentar no chamado do pássaro dionisíaco, que seembala acima de sua cabeça, e que deseja mostrar-lhe o caminho certo.
24.
Tivemos de ressaltar que, sob a estranha influência artística da tragédia musical, uma ilusão apolínica,  salvar do imediato estabelecimento da unidade com a música dionisíaca, enquanto que a nossa excitação musical se poderá aliviar em um terreno apolínico e em um mundo intermediário e visível.Pensávamos ter observado, ao mesmo tempo, que, justamente por tal alívio, aquele mundo intermediário,e o drama em geral, se fizeram visíveis e inteligíveis num grau que é inatingível por toda a arte apolínica restante; de maneira que aqui, onde o mundo intermediário do acontecimento cênico era, por assim dizer,alado e elevado pelo espírito da música, tivemos que reconhecer o maior aumento de suas forças e comisso, naquela aliança fraternal de Apolo e Dionísio, o cume dos propósitos artísticos tanto apolínicos como dionisíacos. Naturalmente não atingiu a imagem luminosa apolínica, na iluminação íntima pela música, o efeito extraordinário dos graus mais débeis de arte apolínica, ou seja aquilo que conseguem o poema épico ou a pedra animada: forçar o olhar contemplativo a uma admiração calma do mundo da
individuatio
. Não seconseguiu isso atingir aqui, apesar da animação e a clareza serem superiores. Contemplávamos o drama e penetrávamos com olhar possante em seu movimentado mundo íntimo dos motivos; — e, apesar disso,somente sentíamos como que passar diante de nosso olhar uma imagem comparativa, cujo sentido profundo julgávamos quase adivinhar, e que desejávamos entreabrir, como um reposteiro, a fim de ver atrás dele a imagem primitiva. A mais luminosa clareza da imagem não nos satisfazia; pois ela tanto parecia revelar como ocultar alguma cousa; e, enquanto parecia desejar, com sua revelação comparativa,o rompimento do véu, mantinha, por outro lado. àquela iluminada onivisualidade preso o olhar,impedindo-o de mais profunda penetração.Aquele que não chegou a ver, ansiando-se ao mesmo tempo para muito além daquilo que via, dificilmente poderá representar-se quão determinada e claramente existem, paralelamente, ambos os processos na consideração do mito trágico e quão determinada e claramente são sentidos; enquanto os verdadeiros espectadores estéticos poderão confirmar que, entre os efeitos estranhos da tragédia, é, sem dúvida,aquele paralelismo o mais digno de nota. Transfira-se agora este fenômeno do espectador estético, num
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 processo analógico, ao artista trágico, e ter-se-á entendido a gênesis do mito trágico. Ele compartilha coma esfera apolínica da arte do prazer total na aparência e no olhar, mas nega ao mesmo tempo este prazer,tendo satisfação ainda superior na destruição do mundo-aparente visível. O conteúdo do mito trágicoé, primeiramente, um acontecimento épico com a glorificação do herói combatente. De onde procede, porém, aquele traço enigmático de que o sofrer no destino do herói, as vitórias mais dolorosas, as mais tormentosas contradições de motivos, enfim, exemplificação daquela sabedoria de Sileno, ou, expresso esteticamente, o feio e o desarmonioso, é representado em formas tão numerosas e, justamente na ida demais exuberante e jovem de um povo, se não se percebe nisto tudo um prazer muito mais elevado?Porque a resposta de que, de fato, a vida é tão trágica, explicaria ainda menos a origem de uma forma artística, se a arte não for apenas imitação da realidade da natureza, mas sim um suplemento metafísicodesta realidade da natureza, colocada junto a esta para a vencer. O mito trágico, na parte em que pertenceà Arte, toma também parte naquela vontade de transfiguração metafísica da arte em geral; o que é, porém,transfigurado, quando apresenta o mundo das aparências sob a imagem do herói que sofre? Não a“realidade” deste mundo de aparências, porque ele nos diz: “Vede! Olhai cuidadosamente! É esta a vossavida! Este o ponteiro no relógio de vossa existência!”E é esta a vida que nos mostra o mito, para transfigurá-la ante nosso olhar? Se não, em que está o prazer estético com que também nós olhamos para tais imagens? Pergunto pelo prazer estético e sei muito bemque muitas de tais imagens podem produzir um deleite moral, seja sob forma da compaixão ou de umtriunfo moral. Aquele, porém, que quiser derivar os efeitos do trágico somente destas fontes morais, comose fez durante muito tempo na estética, que não creia ter feito, com isto, algo para a arte, que, antes demais nada, deve exigir pureza em seus domínios. A primeira exigência para a explicação do mito trágicoconsiste em procurar o prazer, que é próprio dele, na esfera puramente estética, sem passar ao domínio dacompaixão, do medo, do sublime-moral. Como pode excitar o feio e o desarmonioso, conteúdo do mitotrágico, um prazer estético?Aqui torna-se necessário entrarmos com impulso ousado numa metafísica da arte, repetindo a frase anterior, de que a existência e o mundo somente parecem ser justificados como fenômenos estéticos,sentido no qual justamente o mito trágico nos deve convencer de que mesmo o feio e o desarmoniosorepresentam um jogo artístico, que a vontade, na eterna plenitude de seu prazer, joga consigo mesmo. Estefenômeno primitivo, dificilmente compreensível, da arte dionisíaca, torna-se compreensível unicamenteem trajeto direto, entendido imediatamente na significação maravilhosa da dissonância musical; assimcomo, em geral, só a música sabe dar, colocada paralela ao mundo, uma idéia do que deve ser entendidosob “justificação do mundo como fenômeno estético”. O prazer produzido pelo mito trágico, tem pátriaidêntica à sensação prazenteira dada pela dissonância da música. O dionisíaco, com seu prazer primitivo, percebido mesmo na dor, é o regaço comum, que produziu tanto a música como o mito trágico. Não se terá facilitado, em virtude de nos valermos da ajuda da relação musical da dissonância, aquele problema difícil do efeito trágico? Pois agora entendemos o que significa, na tragédia, querer ver e ansiar-se, ao mesmo tempo, para muito além daquilo que vê; estado que, no tocante à dissonância empregadaartisticamente, deveríamos caracterizar da mesma forma, isto é, que queremos ouvir, ansiando-nos, aomesmo tempo, para muito além daquilo que ouvimos. Aquela tendência ao infinito, o bater de asas doanseio, no maior prazer da realidade claramente percebida, lembram-nos que devemos reconhecer emambos os estados um fenômeno dionisíaco, que sempre e sempre nos revela a. construção e destruiçãofacílima do mundo individual como emanação de algum prazer primitivo, de maneira semelhante àcomparação, feita por Heráclito — o Obscuro, da força criadora do Universo com a criança que, brincando, coloca pedras aqui e acolá, constrói montões de areia, derrubando-as em seguida.Para avaliar bem a capacidade dionisíaca de um povo, deveríamos pensar não só na música desse povo,mas também, e com igual necessidade, no mito trágico deste, como testemunha segunda daquelacapacidade. Deve-se crer agora, com este íntimo parentesco entre música e mito, que à degeneração edepravação de um, estará aliado o deperecimento da outra; isto, se no enfraquecimento do mito seexternar o enfraquecimento do poderio dionisíaco. Fitando a evolução do ser alemão, não ficaremos emdúvida no que diz respeito a ambos os casos: na ópera como no caráter abstrato de nossa existência vaziade mitos, na arte, que degenerou em deleite, assim como em uma vida guiada pelo conceito, revelou-se-nos aquela natureza do otimismo socrático, igualmente anti-artística e consumante da vida. Para consolonosso, porém, existiam sinais de que, apesar disso, dormia e sonhava o espírito alemão em perfeita saúde, profundeza e força dionisíaca de modo indestrutível, semelhante a um cavaleiro deitado e dormente, em
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abismo inatingível, abismo do qual se eleva o canto dionisíaco, para fazer-nos entender que esse cavaleiroalemão, ainda agora, sonha com seu velho mito dionisíaco, tendo visões sérias e bem-aventuradas .Que ninguém creia ter o espírito alemão perdido para sempre a sua pátria mítica, porque este aindacompreende muito bem o gorjeio dos pássaros que lhe revelam aquela pátria. Um dia acordará, e nafrescura matinal de um sonho imenso matará o dragão, destruirá os anões pérfidos e despertará Brunhilda — não podendo a própria lança de Wotan barrar o seu caminho!Meus amigos, vós, que credes na música dionisíaca, sabeis também o que, para nós, significa a tragédia. Nela encontramos, renascido da música, o mito trágico — e nele deveis esperar tudo e esquecer o maisdoloroso! Mas o mais doloroso para nós é a longa degradação na qual viveu o espírito alemão, longe dacasa materna e da pátria, em serviço de pérfidos anões. Vós entendeis a palavra, assim como tambémcompreendereis, finalmente, as minhas esperanças.
25.
Música e mito trágicos são expressões idênticas da capacidade dionisíaca do povo, sendo inseparável umado outro. Ambos são originários de um domínio artístico, que se encontra além do apolínico; ambostransfiguram uma região, em cujos acordes prazenteiros ressoam encantadoras tanto a dissonância quantoa imagem terrível do universo; ambos brincam com o acúleo do desgosto, confiando em suas potentíssimas artes mágicas; ambos justificam por este jogo a existência mesmo do “pior dos mundos”.Aqui se revela o dionisíaco, medido no apolínico, como a força-artística eterna e primitiva, que dá origema todo o mundo dos fenômenos; em cujo centro se torna necessária uma nova aparência de transfiguração, para manter em vida o mundo animado da individualização. Se nós pudéssemos representar umaencarnação da dissonância — (e que mais é o homem?) — necessitaria tal dissonância, para poder viver,de alguma ilusão maravilhosa, que cobrisse sua própria essência com o véu da beleza. É esta a verdadeiraintenção artística de Apolo, sob cujo nome reunimos todas aquelas inumeráveis ilusões, de aparênciaformosa, e que a cada instante fazem a existência digna de ser vivida, impelindo-nos a viver o momentosubseqüente.Daquele fundamento de toda existência, da base dionisíaca do mundo, somente deve passar aoconhecimento do indivíduo humano aquilo que possa ser novamente vencido pela força apolínica datransfiguração, de forma que ambos os impulsos artísticos se vêem obrigados a desenvolver as suas forçasem proporção recíproca, segundo a lei da justiça eterna. De onde se elevam tão impetuosamente asforças dionisíacas, como é por nós presenciado, já deve ter descido Apolo, envolto em uma nuvem; e seusmais exuberantes efeitos de beleza serão admirados, provavelmente, por uma das gerações futuras.Que este efeito, porém, é altamente necessário, poderia ser experimentado por cada um, com a maior segurança, através da intuição, se alguma vez se sentisse, embora em sonhos, transportado à existência daantiguidade helênica. Se vagueasse sob elevados pórticos jônicos, alçando o olhar para um horizontelimitado por linhas puras e nobres, — tendo a seu lado a sua figura, transfigurada por reflexos visíveis emreluzente mármore, e, em seu redor, pessoas que majestosamente caminham, ou que suavemente sãomovidas, com sons harmoniosos e com linguagem mímica e rítmica — será que ele, nesse contínuoafluxo de beleza, não levantaria as mãos para Apolo, exclamando: “Ó, bem-aventurado povo helênico!Quão grande deve ser Dionísio entre vós, se o deus delíaco necessita de tais magias, para curar a vossaloucura ditirâmbica!” A uma pessoa com tal disposição de ânimo responderia um ancião ateniense, com oolhar excelso de Ésquilo: “Porém, dize também, ó singular estranho, quanto teve de sofrer este povo, parase poder tornar assim belo! Agora, entretanto, acompanha-me à Tragédia e imola nos templos de ambas asdivindades!”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011


PRIMEIRA PARTE OS PRECONCEITOS DOS FILÓSOFOS



      O amor pela verdade que nos conduzirá a muitas perigosas aventuras, essa famosíssima veracidade de que todos os filósofos sempre falara respeitosamente — quantos problemas já nos colocou! E problemas singulares, malignos, ambíguos! Apesar da velhice da estória, parece que acaba de acontecer. Se acabássemos, por esgotamento, sendo desconfiados e impacientes, que haveria de estranho? É estranhável que essa esfinge nos tenha levado a nos formular toda uma série de perguntas? Quem afinal vem aqui interrogarmos. Que parte de nós tende "para a verdade?" Detivemos-nos ante o problema da origem dessa vontade, para ficar em suspenso diante de outro problema ainda mais importante? Interrogamos-nos sobre o valor dessa vontade. Pode ser que desejamos a verdade, mas por que afastar o não verdadeiro ou a incerteza e até a ignorância? Foi a problema da validade do verdadeiro que se colocou frente a nós ou fomos nós que o procuramos? Quem é Édipo aqui? e quem é a Esfinge? Encontramo-nos frente a uma encruzilhada de questões e problemas. E parece, afinal de contas, que não foram colocados
até agora, que fomos os primeiros a percebê-los, que nos atrevemos a confrontá-los, já que implicam um risco, talvez a maior dos riscos.

   Nossas mentes rechaçam a idéia do nascimento de uma coisa que pode nascer de uma contrária, por exemplo: a verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; o ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio, da cobiça. Tal origem parece impossível: pensar nisso parece próprio de loucos. As realidades mais sublimes devem ter outra origem, que lhes seja peculiar. Não pode ser sua mãe esse mundo efêmero, falaz, ilusório e miserável, esta emaranhada, cadeia de ilusões, desejos e frustrações. No seio do ser, no qual não morrerá nunca, num deus oculto, na “coisa em si” é onde deve se lobrigar seu princípio, ali e em nenhuma outra parte. Este é o preconceito característico dos metafísicos de todos os tempos, este gênero de apreciação se encontra na base de todos seus procedimentos lógicos. A partir desta "crença" esforçam-se em alcançar um “saber”, criam a coisa que, afinal, será pomposamente batizada com o nome de "verdade". A crença medular dos metafísicos é a crença na antinomia dos valores.
   Nem aos mais avisados dentre eles ocorreram dúvidas desde o início, quando teria sido mais necessário: ainda que tivessem feito vota "de onnibus dubitandum". Entretanto, deve-se
duvidar, imediatamente, da existência de antinomias; depois dever-se-ia perguntar se as valorações e as oposições de valores usuais às quais os metafísicos apuseram seu sinete, não são apenas valorações superficiais, perspectivas momentâneas,
tomadas a partir de um ângulo determinado, perspectivas de peixe, no faizão dos pintores. Qualquer que seja o valor que
concedamos ao verdadeiro, à veracidade, ao desinteresse, poderia acontecer que nos víssemos obrigados a atribuir à aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e à cobiça, um valor superior e mais essencial à vida; poder-se-ia chegar a supor inclusive que as coisas boas têm um valor pela forma insidiosa em que estão emaranhadas e talvez até cheguem a ser idênticas em essência às coisas más que parecem suas contrárias. Talvez!... mas há quem se preocupe com esses perigosos 'talvez'? Esse, terá que esperar a chegada de uma nova espécie de filósofos, diferentes em gostos e inclinações a seus predecessores:filósofos do perigoso 'talvez', em todos os sentidos da palavra.
Falo com toda sinceridade, pois vejo a vinda desses novos filósofos...Terminei por acreditar que a maior parte do pensamento consciente deve incluir-se entre as atividades instintivas sem se excetuar a pensamento filosófico. Cheguei a essa idéia depois
de examinar detidamente o pensamento dos filósofos e de ler as suas entrelinhas. Ante esta perspectiva será necessário revisar nossos juízos a esse respeito, como já o fizemos a respeito da hereditariedade e as chamadas qualidades 'inatas'. Assim como o ato do nascimento tem pouca importância relativamente ao
processo hereditário, assim também o "consciente" não se opõe nunca de modo decisivo ao instintivo. A maior parte do pensamento consciente de um filósofo está governada por seus instintos e forçosamente conduzido por vias definidas. Atrás de
toda lógica e da aparente liberdade de seus movimentos, há valorações, ou melhor, exigências fisiológicas impostas pela necessidade de manter um determinado gênero de vida. Daí a idéia, por exemplo, de que tem mais valor o determinado que o indeterminado, a aparência menos valor que a "verdade". Apesar da importância normativa que tem para nós, tais juizes poderiam ser apenas superficiais, uma espécie de tolice, necessária para a conservação de seres como nós. Naturalmente, aceitando que o homem não seja, precisamente, a "medida das coisas"... A falsidade de um juízo não pode constituir, em nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma das afirmativas mais surpreendentes de nossa linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número; renunciar aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez se coloca,
apenas por este fato, além do bem e do mal.O que nos incita a olhar todos os filósofos de uma só vez,com desconfiança e troça, não é porque percebemos quão inocentes são, nem com que facilidade se enganam repetidamente. Em outras palavras, não é frívolo nem infantil.

Comédia MTV - Forró do Twitter - Tem que "twitta"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011


Alem do Bem e do Mal


PREFACIO

Supondo-se que a verdade seja feminina — e não é fundada a
suspeita de que todos os filósofos, enquanto dogmáticos,
entendem pouco de mulheres? Que a espantosa seriedade, a
indiscrição delicada com que até agora estavam acostumados a
afrontar a verdade não eram meios pouco adequados para
cativar uma mulher? O que há de certo é que essa não se deixou
cativar — e os dogmáticos de toda a espécie voltaram-se
tristemente frente a nós e desencorajaram-se.
Se de resto pode-se dizer que ainda estejam em pé! Aqui
estão os troçadores que pretendem ter a dogmática caído
irremissivelmente e até que esteja agonizante. Falando sério há
um bom motivo para esperar que em filosofia o dogmatizar,
ainda que tenha esbanjado frases solenes e aparentemente
incontestáveis, tenha sido uma nobre peraltice de diletantes e
que está próximo o tempo em que se compreenderá cada vez
mais quão mesquinhas são as bases dos edifícios sublimes e
aparentemente inabaláveis, erigidos pelos filósofos dogmáticos
— alguma superstição sobrevivente de épocas pré-históricas
(como superstição da alma que ainda hoje continua a ser fonte
de queixumes com a superstição do "sujeito" e do "eu"), sem
falar em alguns jogos de palavras, alguns erros gramaticais, ou
ainda alguma audaz generalização de muito poucos fatos, muito
pessoais e muito humanos, antes de mais nada humanos. A
filosofia dos dogmáticos foi, esperamos, simplesmente uma
promessa para alguns milhares de anos no futuro, como em
tempos ainda remotos o foi a astrologia, a serviço da qual
foram dispendidos mais dinheiro, trabalho, perspicácia e
paciência de que até agora já se dispendeu com uma ciência
positiva qualquer — à astrologia e às suas aspirações sobrenaturais devemos o estilo grandioso da arquitetura da Ásia e do
Egito. Parece que toda coisa grande para poder se imprimir
com caracteres indeléveis no coração humano deve
primeiramente passar sobre a terra sob o aspecto. de uma
caricatura monstruosa e assustadora; tal caricatura monstruosa
foi a filosofia dogmática; por exemplo a doutrina dos Vedas na
Ásia e o platonismo na Europa. Somos ingratos para com eles,
ainda que seja necessário confessar que o pior, o mais pertinaz
e o mais perigoso de todos os erros foi o de um filósofo
dogmático e precisamente a invenção platônica do puro espírito
e do bom por si mesmo. Mas hoje que o superamos, que a
Europa respira aliviada de., tal incubo e que pelo menos pode
dormir um sono mais salutar, somos, nós cuja única junção é
permanecermos acordados, somos os herdeiros de toda força,
acumulada pela longa luta contra o erro. Seria preciso colocar a
verdade de pernas para a ar, renegar a perspectiva, a condição
fundamental da vida, para falar do espírito do bem como o faz
Platão; antes, como médico, poder-se-ia perguntar "por que
uma tal moléstia no produto mais belo da Antigüidade, em
Platão? Seria então verdadeiro que Sócrates o tivesse
corrompido? Seria Sócrates efetivamente o corruptor da
juventude? Mereceu, na verdade, a sua cicuta?" Porém a luta
contra Platão, ou para dizê-lo de modo mais inteligível e
popular, a luta contra a milenar opressão clerical cristã — uma
vez que o Cristianismo é um Platonismo para a povo —
produziu, na Europa, uma maravilhosa tensão dos espíritos até
então nunca vista na terra; com o arco vergado de tal forma
pode-se visar o alvo mais longínquo. É verdade que para o
europeu esta tensão é causa de mal-estar; e duas grandes
tentativas de relaxar o arco já foram feitas, a primeira vez com
o jesuitismo e a segunda com a propaganda das idéias
democráticas. Com o auxílio da liberdade de imprensa e com a
leitura dos jornais chegamos a tal ponto que o espírito não
sentirá mais incubo de si mesmo. (Os alemães inventaram a
pólvora, que isto lhes sirva de orgulho; mas inventaram a
imprensa e com isso cometeram erros!) Mas nós, nós que não
somos jesuítas, democratas e nem mesmo suficientemente
alemães, nós, nós bons europeus e espíritos livres — sentimos
agora toda a opressão do espírito, possuímos toda a tensão do
arco! E, é claro, também a seta, a tarefa, e quem sabe? o alvo...
Sils-Maria, Engadina Sup., junho de 1885.