Nietzsche a tragédia graga
A arte grega, e principalmente a tragédia grega, susteve a
destruição do mito; foi necessário destruí-las para, livre do solo
pátrio, poder viver desenfreadamente na selvageria do pensamento, da moral e da
ação.Ainda agora tenta proporcionar-se aquele impulso metafísico uma forma
de transfiguração, conquanto que enfraquecida, no socratismo da ciência que
impele à vida; mas, nas esferas inferiores, este impulso não levou senão a uma
procura febril, que se perdeu, pouco a pouco, num pandemônio de mitos
e superstições colhidas em toda parte, entre os quais se situava, intranqüilo, o
heleno, até que conseguiu,como Gréculo, pôr uma máscara de alegria grega e
leviandade grega a esta febre, ou entorpecer-setotalmente com qualquer
superstição oriental. Aproximámo-nos deste estado, desde o renascimento da antiguidade
alexandrino-romana do século XV,depois de um entreato difícil de
descrever, de forma assombrosa. Nas alturas a mesma imensa vontade
desaber, a mesma alegria insaciável de achar, a mesmo enorme secularização, a seu
lado um vagueio sem pátria, um ávido acercar-se a mesas estranhas, um
leviano endeusar da atualidade ou um alienar entorpecido. Tudo
sub specie saeculi
do “tempo atual”; sintomas que nos fazem crer em igual falta no coração
da cultura, em destruição do mito. Não parece ser possível
transplantar, com sucesso contínuo, omito estranho, sem ferir incuravelmente a
árvore com esta transplantação, que é alguma vez, quiçá, bastante forte e
sã para expulsar aquele elemento estranho em luta terrível mas que, geralmente,
definha e perece ou se consome em viço doentio. Confiamos tanto no núcleo
puro e vigoroso do ser alemão, que dele ousamos esperar a expulsão daqueles
elementos estranhos, implantados pela violência, e cremos existir a
possibilidade do espírito alemão voltar às suas próprias fontes. Há, talvez,
quem julgue dever começar aquele espírito com a expulsão do românico; para
o que poderia reconhecer uma preparação e um alento externo na coragem vitoriosa
e glória sangrenta da última guerra, mas deve buscar a necessidade interna
na anulação, de sempre ser digno dos excelsos precursores deste trajeto,
de Lutero assim como de nossos grandes artistas e poetas. Mas que
nunca acredite em poder sustentar embates semelhantes sem seus penates, sem
sua pátria mítica, sem um “revolver” de todas as cousas alemãs!
Equando o alemão procurar encontrar um guia que com ele retorne à pátria há
muito perdida, e cujoscaminhos e pontes, nem mais conhece — então ele deve
atentar no chamado do pássaro dionisíaco, que seembala acima de sua cabeça, e que
deseja mostrar-lhe o caminho certo.
24.
Tivemos de ressaltar que, sob a estranha influência artística da
tragédia musical, uma ilusão apolínica, salvar do imediato
estabelecimento da unidade com a música dionisíaca, enquanto que a
nossa excitação musical se poderá aliviar em um terreno apolínico e em um mundo
intermediário e visível.Pensávamos ter observado, ao mesmo tempo, que,
justamente por tal alívio, aquele mundo intermediário,e o drama em geral, se
fizeram visíveis e inteligíveis num grau que é inatingível por toda a arte
apolínica restante; de maneira que aqui, onde o mundo intermediário do
acontecimento cênico era, por assim dizer,alado e elevado pelo espírito da
música, tivemos que reconhecer o maior aumento de suas forças e comisso,
naquela aliança fraternal de Apolo e Dionísio, o cume dos propósitos
artísticos tanto apolínicos como dionisíacos. Naturalmente não atingiu a
imagem luminosa apolínica, na iluminação íntima pela música, o
efeito extraordinário dos graus mais débeis de arte apolínica, ou seja aquilo
que conseguem o poema épico ou a pedra animada: forçar o olhar contemplativo
a uma admiração calma do mundo da
individuatio
. Não seconseguiu isso atingir aqui, apesar da animação e a clareza
serem superiores. Contemplávamos o drama e penetrávamos com olhar possante
em seu movimentado mundo íntimo dos motivos; — e, apesar disso,somente
sentíamos como que passar diante de nosso olhar uma imagem comparativa,
cujo sentido profundo julgávamos quase adivinhar, e que desejávamos
entreabrir, como um reposteiro, a fim de ver atrás dele a imagem
primitiva. A mais luminosa clareza da imagem não nos satisfazia; pois
ela tanto parecia revelar como ocultar alguma cousa; e, enquanto
parecia desejar, com sua revelação comparativa,o rompimento do véu, mantinha,
por outro lado. àquela iluminada onivisualidade preso o olhar,impedindo-o de
mais profunda penetração.Aquele que não chegou a ver, ansiando-se ao mesmo
tempo para muito além daquilo que via, dificilmente poderá representar-se
quão determinada e claramente existem, paralelamente, ambos os processos
na consideração do mito trágico e quão determinada e claramente são sentidos;
enquanto os verdadeiros espectadores estéticos poderão confirmar que, entre os efeitos
estranhos da tragédia, é, sem dúvida,aquele paralelismo o mais digno de
nota. Transfira-se agora este fenômeno do espectador estético, num
processo analógico, ao artista trágico, e ter-se-á entendido a
gênesis do mito trágico. Ele compartilha coma esfera apolínica da arte do
prazer total na aparência e no olhar, mas nega ao mesmo tempo este
prazer,tendo satisfação ainda superior na destruição do mundo-aparente visível. O conteúdo do mito trágicoé,
primeiramente, um acontecimento épico com a glorificação do herói combatente.
De onde procede, porém, aquele traço enigmático de que o sofrer no destino
do herói, as vitórias mais dolorosas, as mais tormentosas contradições de
motivos, enfim, exemplificação daquela sabedoria de Sileno, ou,
expresso esteticamente, o feio e o desarmonioso, é representado em formas tão
numerosas e, justamente na ida demais exuberante e jovem de um povo, se não se
percebe nisto tudo um prazer muito mais elevado?Porque a resposta de que, de
fato, a vida é tão trágica, explicaria ainda menos a origem de uma
forma artística, se a arte não for apenas imitação da realidade da natureza, mas
sim um suplemento metafísicodesta realidade da natureza, colocada junto a esta
para a vencer. O mito trágico, na parte em que pertenceà Arte, toma também
parte naquela vontade de transfiguração metafísica da arte em geral; o que é,
porém,transfigurado, quando apresenta o mundo das aparências sob a imagem do
herói que sofre? Não a“realidade” deste mundo de aparências, porque ele
nos diz: “Vede! Olhai cuidadosamente! É esta a vossavida! Este o ponteiro
no relógio de vossa existência!”E é esta a vida que nos mostra o mito, para
transfigurá-la ante nosso olhar? Se não, em que está o prazer estético com
que também nós olhamos para tais imagens? Pergunto pelo prazer estético
e sei muito bemque muitas de tais imagens podem produzir um deleite moral, seja
sob forma da compaixão ou de umtriunfo moral. Aquele, porém, que quiser derivar
os efeitos do trágico somente destas fontes morais, comose fez durante muito
tempo na estética, que não creia ter feito, com isto, algo para a arte, que,
antes demais nada, deve exigir pureza em seus domínios. A primeira
exigência para a explicação do mito trágicoconsiste em procurar o prazer, que é
próprio dele, na esfera puramente estética, sem passar ao domínio dacompaixão,
do medo, do sublime-moral. Como pode excitar o feio e o desarmonioso, conteúdo
do mitotrágico, um prazer estético?Aqui torna-se necessário entrarmos com
impulso ousado numa metafísica da arte, repetindo a frase anterior, de que a
existência e o mundo somente parecem ser justificados como fenômenos
estéticos,sentido no qual justamente o mito trágico nos deve convencer de que
mesmo o feio e o desarmoniosorepresentam um jogo artístico, que a vontade, na
eterna plenitude de seu prazer, joga consigo mesmo. Estefenômeno primitivo,
dificilmente compreensível, da arte dionisíaca, torna-se compreensível
unicamenteem trajeto direto, entendido imediatamente na significação
maravilhosa da dissonância musical; assimcomo, em geral, só a música sabe dar,
colocada paralela ao mundo, uma idéia do que deve ser entendidosob
“justificação do mundo como fenômeno estético”. O prazer produzido pelo mito
trágico, tem pátriaidêntica à sensação prazenteira dada pela dissonância da música.
O dionisíaco, com seu prazer primitivo, percebido mesmo na dor, é o
regaço comum, que produziu tanto a música como o mito trágico. Não se terá
facilitado, em virtude de nos valermos da ajuda da relação musical da
dissonância, aquele problema difícil do efeito trágico? Pois agora
entendemos o que significa, na tragédia, querer ver e ansiar-se, ao mesmo
tempo, para muito além daquilo que vê; estado que, no tocante à dissonância
empregadaartisticamente, deveríamos caracterizar da mesma forma, isto é,
que queremos ouvir, ansiando-nos, aomesmo tempo, para muito além daquilo que
ouvimos. Aquela tendência ao infinito, o bater de asas doanseio, no maior
prazer da realidade claramente percebida, lembram-nos que devemos reconhecer
emambos os estados um fenômeno dionisíaco, que sempre e sempre nos revela a.
construção e destruiçãofacílima do mundo individual como emanação de algum
prazer primitivo, de maneira semelhante àcomparação, feita por Heráclito — o
Obscuro, da força criadora do Universo com a criança que, brincando,
coloca pedras aqui e acolá, constrói montões de areia, derrubando-as em
seguida.Para avaliar bem a capacidade dionisíaca de um povo, deveríamos pensar
não só na música desse povo,mas também, e com igual necessidade, no mito
trágico deste, como testemunha segunda daquelacapacidade. Deve-se crer
agora, com este íntimo parentesco entre música e mito, que à degeneração
edepravação de um, estará aliado o deperecimento da outra; isto, se no
enfraquecimento do mito seexternar o enfraquecimento do poderio dionisíaco.
Fitando a evolução do ser alemão, não ficaremos emdúvida no que diz respeito a
ambos os casos: na ópera como no caráter abstrato de nossa existência vaziade
mitos, na arte, que degenerou em deleite, assim como em uma vida guiada pelo
conceito, revelou-se-nos aquela natureza do otimismo socrático, igualmente
anti-artística e consumante da vida. Para consolonosso, porém, existiam
sinais de que, apesar disso, dormia e sonhava o espírito alemão em perfeita
saúde, profundeza e força dionisíaca de modo indestrutível, semelhante a
um cavaleiro deitado e dormente, em
abismo inatingível, abismo do qual se eleva o canto dionisíaco, para
fazer-nos entender que esse cavaleiroalemão, ainda agora, sonha com seu velho
mito dionisíaco, tendo visões sérias e bem-aventuradas .Que ninguém creia ter o espírito
alemão perdido para sempre a sua pátria mítica, porque este aindacompreende
muito bem o gorjeio dos pássaros que lhe revelam aquela pátria. Um dia
acordará, e nafrescura matinal de um sonho imenso matará o dragão, destruirá os
anões pérfidos e despertará Brunhilda — não podendo a própria lança
de Wotan barrar o seu caminho!Meus amigos, vós, que credes na música
dionisíaca, sabeis também o que, para nós, significa a tragédia. Nela
encontramos, renascido da música, o mito trágico — e nele deveis esperar tudo e
esquecer o maisdoloroso! Mas o mais doloroso para nós é a longa degradação na
qual viveu o espírito alemão, longe dacasa materna e da pátria, em serviço
de pérfidos anões. Vós entendeis a palavra, assim como
tambémcompreendereis, finalmente, as minhas esperanças.
25.
Música e mito trágicos são expressões idênticas da capacidade
dionisíaca do povo, sendo inseparável umado outro. Ambos são originários de um
domínio artístico, que se encontra além do apolínico; ambostransfiguram uma
região, em cujos acordes prazenteiros ressoam encantadoras tanto a
dissonância quantoa imagem terrível do universo; ambos brincam com o acúleo do
desgosto, confiando em suas potentíssimas artes mágicas; ambos justificam
por este jogo a existência mesmo do “pior dos mundos”.Aqui se revela
o dionisíaco, medido no apolínico, como a força-artística eterna e primitiva,
que dá origema todo o mundo dos fenômenos; em cujo centro se torna necessária
uma nova aparência de transfiguração, para manter em vida o mundo animado
da individualização. Se nós pudéssemos representar umaencarnação da dissonância
— (e que mais é o homem?) — necessitaria tal dissonância, para poder
viver,de alguma ilusão maravilhosa, que cobrisse sua própria essência com o véu
da beleza. É esta a verdadeiraintenção artística de Apolo, sob cujo nome
reunimos todas aquelas inumeráveis ilusões, de aparênciaformosa, e que a
cada instante fazem a existência digna de ser vivida, impelindo-nos a viver o
momentosubseqüente.Daquele fundamento de toda existência, da base
dionisíaca do mundo, somente deve passar aoconhecimento do indivíduo
humano aquilo que possa ser novamente vencido pela força apolínica
datransfiguração, de forma que ambos os impulsos artísticos se vêem obrigados a
desenvolver as suas forçasem proporção recíproca, segundo a lei da justiça eterna. De onde se
elevam tão impetuosamente asforças dionisíacas, como é por nós
presenciado, já deve ter descido Apolo, envolto em uma nuvem; e seusmais
exuberantes efeitos de beleza serão admirados, provavelmente, por uma das
gerações futuras.Que este efeito, porém, é altamente necessário, poderia ser
experimentado por cada um, com a maior segurança, através da intuição, se
alguma vez se sentisse, embora em sonhos, transportado à existência
daantiguidade helênica. Se vagueasse sob elevados pórticos jônicos, alçando o olhar
para um horizontelimitado por linhas puras e nobres, — tendo a seu lado a sua
figura, transfigurada por reflexos visíveis emreluzente mármore, e, em seu
redor, pessoas que majestosamente caminham, ou que suavemente sãomovidas, com
sons harmoniosos e com linguagem mímica e rítmica — será que ele, nesse
contínuoafluxo de beleza, não levantaria as mãos para Apolo, exclamando:
“Ó, bem-aventurado povo helênico!Quão grande deve ser Dionísio entre vós, se o
deus delíaco necessita de tais magias, para curar a
vossaloucura ditirâmbica!” A uma pessoa com tal disposição de ânimo responderia
um ancião ateniense, com oolhar excelso de Ésquilo: “Porém, dize também, ó
singular estranho, quanto teve de sofrer este povo, parase poder tornar assim
belo! Agora, entretanto, acompanha-me à Tragédia e imola nos templos de
ambas asdivindades!”
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