segunda-feira, 28 de novembro de 2011


PRIMEIRA PARTE OS PRECONCEITOS DOS FILÓSOFOS



      O amor pela verdade que nos conduzirá a muitas perigosas aventuras, essa famosíssima veracidade de que todos os filósofos sempre falara respeitosamente — quantos problemas já nos colocou! E problemas singulares, malignos, ambíguos! Apesar da velhice da estória, parece que acaba de acontecer. Se acabássemos, por esgotamento, sendo desconfiados e impacientes, que haveria de estranho? É estranhável que essa esfinge nos tenha levado a nos formular toda uma série de perguntas? Quem afinal vem aqui interrogarmos. Que parte de nós tende "para a verdade?" Detivemos-nos ante o problema da origem dessa vontade, para ficar em suspenso diante de outro problema ainda mais importante? Interrogamos-nos sobre o valor dessa vontade. Pode ser que desejamos a verdade, mas por que afastar o não verdadeiro ou a incerteza e até a ignorância? Foi a problema da validade do verdadeiro que se colocou frente a nós ou fomos nós que o procuramos? Quem é Édipo aqui? e quem é a Esfinge? Encontramo-nos frente a uma encruzilhada de questões e problemas. E parece, afinal de contas, que não foram colocados
até agora, que fomos os primeiros a percebê-los, que nos atrevemos a confrontá-los, já que implicam um risco, talvez a maior dos riscos.

   Nossas mentes rechaçam a idéia do nascimento de uma coisa que pode nascer de uma contrária, por exemplo: a verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; o ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio, da cobiça. Tal origem parece impossível: pensar nisso parece próprio de loucos. As realidades mais sublimes devem ter outra origem, que lhes seja peculiar. Não pode ser sua mãe esse mundo efêmero, falaz, ilusório e miserável, esta emaranhada, cadeia de ilusões, desejos e frustrações. No seio do ser, no qual não morrerá nunca, num deus oculto, na “coisa em si” é onde deve se lobrigar seu princípio, ali e em nenhuma outra parte. Este é o preconceito característico dos metafísicos de todos os tempos, este gênero de apreciação se encontra na base de todos seus procedimentos lógicos. A partir desta "crença" esforçam-se em alcançar um “saber”, criam a coisa que, afinal, será pomposamente batizada com o nome de "verdade". A crença medular dos metafísicos é a crença na antinomia dos valores.
   Nem aos mais avisados dentre eles ocorreram dúvidas desde o início, quando teria sido mais necessário: ainda que tivessem feito vota "de onnibus dubitandum". Entretanto, deve-se
duvidar, imediatamente, da existência de antinomias; depois dever-se-ia perguntar se as valorações e as oposições de valores usuais às quais os metafísicos apuseram seu sinete, não são apenas valorações superficiais, perspectivas momentâneas,
tomadas a partir de um ângulo determinado, perspectivas de peixe, no faizão dos pintores. Qualquer que seja o valor que
concedamos ao verdadeiro, à veracidade, ao desinteresse, poderia acontecer que nos víssemos obrigados a atribuir à aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e à cobiça, um valor superior e mais essencial à vida; poder-se-ia chegar a supor inclusive que as coisas boas têm um valor pela forma insidiosa em que estão emaranhadas e talvez até cheguem a ser idênticas em essência às coisas más que parecem suas contrárias. Talvez!... mas há quem se preocupe com esses perigosos 'talvez'? Esse, terá que esperar a chegada de uma nova espécie de filósofos, diferentes em gostos e inclinações a seus predecessores:filósofos do perigoso 'talvez', em todos os sentidos da palavra.
Falo com toda sinceridade, pois vejo a vinda desses novos filósofos...Terminei por acreditar que a maior parte do pensamento consciente deve incluir-se entre as atividades instintivas sem se excetuar a pensamento filosófico. Cheguei a essa idéia depois
de examinar detidamente o pensamento dos filósofos e de ler as suas entrelinhas. Ante esta perspectiva será necessário revisar nossos juízos a esse respeito, como já o fizemos a respeito da hereditariedade e as chamadas qualidades 'inatas'. Assim como o ato do nascimento tem pouca importância relativamente ao
processo hereditário, assim também o "consciente" não se opõe nunca de modo decisivo ao instintivo. A maior parte do pensamento consciente de um filósofo está governada por seus instintos e forçosamente conduzido por vias definidas. Atrás de
toda lógica e da aparente liberdade de seus movimentos, há valorações, ou melhor, exigências fisiológicas impostas pela necessidade de manter um determinado gênero de vida. Daí a idéia, por exemplo, de que tem mais valor o determinado que o indeterminado, a aparência menos valor que a "verdade". Apesar da importância normativa que tem para nós, tais juizes poderiam ser apenas superficiais, uma espécie de tolice, necessária para a conservação de seres como nós. Naturalmente, aceitando que o homem não seja, precisamente, a "medida das coisas"... A falsidade de um juízo não pode constituir, em nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma das afirmativas mais surpreendentes de nossa linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número; renunciar aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez se coloca,
apenas por este fato, além do bem e do mal.O que nos incita a olhar todos os filósofos de uma só vez,com desconfiança e troça, não é porque percebemos quão inocentes são, nem com que facilidade se enganam repetidamente. Em outras palavras, não é frívolo nem infantil.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011


Alem do Bem e do Mal


PREFACIO

Supondo-se que a verdade seja feminina — e não é fundada a
suspeita de que todos os filósofos, enquanto dogmáticos,
entendem pouco de mulheres? Que a espantosa seriedade, a
indiscrição delicada com que até agora estavam acostumados a
afrontar a verdade não eram meios pouco adequados para
cativar uma mulher? O que há de certo é que essa não se deixou
cativar — e os dogmáticos de toda a espécie voltaram-se
tristemente frente a nós e desencorajaram-se.
Se de resto pode-se dizer que ainda estejam em pé! Aqui
estão os troçadores que pretendem ter a dogmática caído
irremissivelmente e até que esteja agonizante. Falando sério há
um bom motivo para esperar que em filosofia o dogmatizar,
ainda que tenha esbanjado frases solenes e aparentemente
incontestáveis, tenha sido uma nobre peraltice de diletantes e
que está próximo o tempo em que se compreenderá cada vez
mais quão mesquinhas são as bases dos edifícios sublimes e
aparentemente inabaláveis, erigidos pelos filósofos dogmáticos
— alguma superstição sobrevivente de épocas pré-históricas
(como superstição da alma que ainda hoje continua a ser fonte
de queixumes com a superstição do "sujeito" e do "eu"), sem
falar em alguns jogos de palavras, alguns erros gramaticais, ou
ainda alguma audaz generalização de muito poucos fatos, muito
pessoais e muito humanos, antes de mais nada humanos. A
filosofia dos dogmáticos foi, esperamos, simplesmente uma
promessa para alguns milhares de anos no futuro, como em
tempos ainda remotos o foi a astrologia, a serviço da qual
foram dispendidos mais dinheiro, trabalho, perspicácia e
paciência de que até agora já se dispendeu com uma ciência
positiva qualquer — à astrologia e às suas aspirações sobrenaturais devemos o estilo grandioso da arquitetura da Ásia e do
Egito. Parece que toda coisa grande para poder se imprimir
com caracteres indeléveis no coração humano deve
primeiramente passar sobre a terra sob o aspecto. de uma
caricatura monstruosa e assustadora; tal caricatura monstruosa
foi a filosofia dogmática; por exemplo a doutrina dos Vedas na
Ásia e o platonismo na Europa. Somos ingratos para com eles,
ainda que seja necessário confessar que o pior, o mais pertinaz
e o mais perigoso de todos os erros foi o de um filósofo
dogmático e precisamente a invenção platônica do puro espírito
e do bom por si mesmo. Mas hoje que o superamos, que a
Europa respira aliviada de., tal incubo e que pelo menos pode
dormir um sono mais salutar, somos, nós cuja única junção é
permanecermos acordados, somos os herdeiros de toda força,
acumulada pela longa luta contra o erro. Seria preciso colocar a
verdade de pernas para a ar, renegar a perspectiva, a condição
fundamental da vida, para falar do espírito do bem como o faz
Platão; antes, como médico, poder-se-ia perguntar "por que
uma tal moléstia no produto mais belo da Antigüidade, em
Platão? Seria então verdadeiro que Sócrates o tivesse
corrompido? Seria Sócrates efetivamente o corruptor da
juventude? Mereceu, na verdade, a sua cicuta?" Porém a luta
contra Platão, ou para dizê-lo de modo mais inteligível e
popular, a luta contra a milenar opressão clerical cristã — uma
vez que o Cristianismo é um Platonismo para a povo —
produziu, na Europa, uma maravilhosa tensão dos espíritos até
então nunca vista na terra; com o arco vergado de tal forma
pode-se visar o alvo mais longínquo. É verdade que para o
europeu esta tensão é causa de mal-estar; e duas grandes
tentativas de relaxar o arco já foram feitas, a primeira vez com
o jesuitismo e a segunda com a propaganda das idéias
democráticas. Com o auxílio da liberdade de imprensa e com a
leitura dos jornais chegamos a tal ponto que o espírito não
sentirá mais incubo de si mesmo. (Os alemães inventaram a
pólvora, que isto lhes sirva de orgulho; mas inventaram a
imprensa e com isso cometeram erros!) Mas nós, nós que não
somos jesuítas, democratas e nem mesmo suficientemente
alemães, nós, nós bons europeus e espíritos livres — sentimos
agora toda a opressão do espírito, possuímos toda a tensão do
arco! E, é claro, também a seta, a tarefa, e quem sabe? o alvo...
Sils-Maria, Engadina Sup., junho de 1885.