PRIMEIRA PARTE OS PRECONCEITOS DOS FILÓSOFOS
O amor pela verdade que nos conduzirá a muitas
perigosas aventuras, essa famosíssima veracidade de que todos
os filósofos sempre falara respeitosamente — quantos problemas já nos colocou! E problemas singulares,
malignos, ambíguos! Apesar da velhice da estória, parece que
acaba de acontecer. Se acabássemos, por esgotamento, sendo desconfiados e impacientes, que haveria de estranho?
É estranhável que essa esfinge nos tenha levado a nos
formular toda uma série de perguntas? Quem afinal vem aqui interrogarmos. Que parte de nós tende "para a verdade?"
Detivemos-nos ante o problema da origem dessa vontade, para ficar
em suspenso diante de outro problema ainda mais
importante? Interrogamos-nos sobre o valor dessa vontade. Pode
ser que desejamos a verdade, mas por que afastar o não
verdadeiro ou a incerteza e até a ignorância? Foi a problema da
validade do verdadeiro que se colocou frente a nós ou fomos nós
que o procuramos? Quem é Édipo aqui? e quem é a Esfinge? Encontramo-nos frente a uma encruzilhada de questões
e problemas. E parece, afinal de contas, que não foram
colocados
até agora, que fomos os primeiros a percebê-los, que
nos atrevemos a confrontá-los, já que implicam um risco,
talvez a maior dos riscos.
Nossas mentes rechaçam a idéia do nascimento de uma
coisa que pode nascer de uma contrária, por exemplo: a
verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; o
ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do
sábio, da cobiça. Tal origem parece impossível: pensar nisso
parece próprio de loucos. As realidades mais sublimes devem
ter outra origem, que lhes seja peculiar. Não pode ser sua mãe
esse mundo efêmero, falaz, ilusório e miserável, esta
emaranhada, cadeia de ilusões, desejos e frustrações. No seio do
ser, no qual não morrerá nunca, num deus oculto, na “coisa em si”
é onde deve se lobrigar seu princípio, ali e em nenhuma
outra parte. Este é o preconceito característico dos metafísicos
de todos os tempos, este gênero de apreciação se encontra na
base de todos seus procedimentos lógicos. A partir desta
"crença" esforçam-se em alcançar um “saber”, criam a coisa que, afinal,
será pomposamente batizada com o nome de
"verdade". A crença medular dos metafísicos é a crença na antinomia
dos valores.
Nem aos mais avisados dentre eles ocorreram dúvidas
desde o início, quando teria sido mais necessário: ainda que
tivessem feito vota "de onnibus dubitandum".
Entretanto, deve-se
duvidar, imediatamente, da existência de antinomias;
depois dever-se-ia perguntar se as valorações e as
oposições de valores usuais às quais os metafísicos apuseram seu sinete,
não são apenas valorações superficiais, perspectivas
momentâneas,
tomadas a partir de um ângulo determinado,
perspectivas de peixe, no faizão dos pintores. Qualquer que seja o
valor que
concedamos ao verdadeiro, à veracidade, ao
desinteresse, poderia acontecer que nos víssemos obrigados a
atribuir à aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e à
cobiça, um valor superior e mais essencial à vida; poder-se-ia chegar
a supor inclusive que as coisas boas têm um valor pela forma
insidiosa em que estão emaranhadas e talvez até cheguem a ser
idênticas em essência às coisas más que parecem suas
contrárias. Talvez!... mas há quem se preocupe com esses perigosos
'talvez'? Esse, terá que esperar a chegada de uma nova espécie de
filósofos, diferentes em gostos e inclinações a seus
predecessores:filósofos do perigoso 'talvez', em todos os sentidos
da palavra.
Falo com toda sinceridade, pois vejo a vinda desses
novos filósofos...Terminei por acreditar que a maior parte do
pensamento consciente deve incluir-se entre as atividades
instintivas sem se excetuar a pensamento filosófico. Cheguei a essa
idéia depois
de examinar detidamente o pensamento dos filósofos e
de ler as suas entrelinhas. Ante esta perspectiva será
necessário revisar nossos juízos a esse respeito, como já o fizemos a
respeito da hereditariedade e as chamadas qualidades 'inatas'.
Assim como o ato do nascimento tem pouca importância
relativamente ao
processo hereditário, assim também o "consciente"
não se opõe nunca de modo decisivo ao instintivo. A maior parte
do pensamento consciente de um filósofo está governada
por seus instintos e forçosamente conduzido por vias
definidas. Atrás de
toda lógica e da aparente liberdade de seus
movimentos, há valorações, ou melhor, exigências fisiológicas
impostas pela necessidade de manter um determinado gênero de vida.
Daí a idéia, por exemplo, de que tem mais valor o
determinado que o indeterminado, a aparência menos valor que a
"verdade". Apesar da importância normativa que tem para nós,
tais juizes poderiam ser apenas superficiais, uma espécie de
tolice, necessária para a conservação de seres como nós. Naturalmente, aceitando que o homem não seja,
precisamente, a "medida das coisas"... A falsidade de um juízo não pode constituir, em
nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia
ser uma das afirmativas mais surpreendentes de nossa
linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para
conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a
vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os
juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori")
são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver
sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a
medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem
falsear constantemente o mundo através do número; renunciar
aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a
renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é
opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente
dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez
se coloca,
apenas por este fato, além do bem e do mal.O que nos incita a olhar todos os filósofos de uma
só vez,com desconfiança e troça, não é porque percebemos
quão inocentes são, nem com que facilidade se enganam repetidamente. Em outras palavras, não é frívolo nem
infantil.